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Coffeeshop - Mara Parrela -  da Holanda

ENTREVISTA: CLARA GHIMEL

Blues em tom brasileiro

 

 Em suas apresentações na Holanda, a cantora e compositora de blues Clara Ghimel mostrou que a terra dos tropicalistas Gil, Gal e Caetano, vai além do axé music, do funk, do swing e dos ritmos populares. A música negro-americana, na voz de Clara, ganha aquele incontestável charme brasileiro e um certo tempero baiano, que a consagraram como uma das melhores intérpretes do gênero no Brasil. Com dois CDs lançados, Every Night of the Week e Old Poster, ela já prepara o repertório do terceiro.  Ao se apresentar no Clube de Jazz em Den Haag, na Holanda, Clara Ghimel mostrou firmeza ao cantar blues e fado português e, sem fugir às raízes, cantou música popular brasileira. Em um dos intervalos ela concedeu ao Brazilianpress a seguinte entrevista.

 

 

Mara Parrela / Francis Silva

 

 

claraguihmel2.jpg

Brazilianpress (BP) - É sua primeira apresentação na Holanda?

 

Clara - Não, a terceira. A primeira foi na cidade de Nijmegen, em um festival que tem lá. Depois eu fiz em Amsterdam, no Café de Claus e agora essa. É a primeira vez que venho para o exterior, que faço shows fora da América Latina.

 

BP Por que a Europa?

 

Clara - Os caminhos que uma cantora de blues no Brasil têm que fazer, eu já fiz. Um dia alguém da Holanda de Breda - entrou no meu site (www. claraghimel.com) e convidou-me para um festival nesta cidade - só iria fazer esse show e voltar para o Brasil mas, chegando aqui, foi aparecendo uma coisa, aparecendo outra... nem fiz esse show.  Meu amigo André ( ver e-mail) foi mostrando o meu disco pra um, pra outro... e foi acontecendo.

 

BP-  Como foi a produção dos seus  CDs?

 

Clara - O primeiro Every Night of the Week esgotou e o segundo Old Poster já está na segunda edição, com 10 mil cópias. Do primeiro não sei dizer quantas cópias foram. Eu nunca recebi direito autoral, mas recebo do segundo. Na confecção do primeiro CD eu tinha um pequeno escritório de produção, no Pelourinho, em Salvador. Estava muito envolvida, saindo do jazz e entrando no blues. O jazz não me satisfazia tanto como expressão da minha voz. Eu queria mais espaço. E isso consegui no blues. Eu já ouvia muito e comecei a introduzi-lo cada vez mais no meu repertório, até cessar todos os números. Nessa época, o Governo da Bahia convidou-me para fazer um projeto no Pelourinho às segundas-feiras. Fiz a abertura do show da Marina Silva, depois de oito anos que não ela não fazia apresentações na Bahia. Cantamos para um público de 1.500 pessoas. 

BP - Que época?

 

Clara - Em 1996. Eles queriam atingir um público diferente, não só de turistas, mas pessoas da cidade para conhecer o Pelourinho, que estava reformado, as etapas estavam sendo entregues... E eu comecei esse projeto de dois meses - mas ficou seis meses. Eu levei artistas que não eram do blues, artistas do axê music... Era para fazer uma hora de show (meia hora só de convidados). Depois tive a idéia de fazer festivais de blues. Promovi uns três. Eu fiz o Brahma Blues e o Brahma Fashion, que era um mês cada um, ficou três. Um festival num Shopping Center, onde conheci o André Christovam e o trouxe, como atração nacional, para encerrar o festival. Ele se apresentou no teatro e  no Hotel Meridian. Daí decidimos fazer um disco. E eu gravei.

 

BP Algum patrocínio?

 

Clara Do Governo da Bahia, através da Secretaria da Cultura. Depois uma gravadora européia prensou e distribuiu o disco. Soube que andou tocando por aqui. O primeiro foi muito preso, muito atrelado ao que o produtor queria. Dirigiu a minha voz, enfim... Já o segundo, recebeu mais as influências da música nordestina, da música popular brasileira.

 

Fiz homenagens aos Beatles, a Billy Holiday. Imaginei-a nascida na Bahia, o que cantaria? Provavelmente Bossa Nova. Coloquei gravações de  Rod Stuart, e coloquei violão. Com violão é como se você não datasse o disco.

 

O primeiro CD ainda foi gravado em rolo, em 7,5 polegadas. Já tinha o processo todo digital. Eu quis gravar, expandir... porque gravamos com poucos instrumentos, bem menos do que o do segundo, pra ficar aquele disco clássico de blues. Tipo assim: eu canto blues.

 

BP -  No segundo CD o produto nacional foi mais valorizado?

 

Clara - No segundo, Alexandre Fontanetti veio com uma produção de Rita Lee, de Zélia Duncan, de Guilherme Arantes... A formação dele é mais ligada a MPB do que ao Blues. Ele é guitarrista, pioneiro do blues no Brasil. Ele é um blueseiro mesmo. Eu já não me considero blueseira ortodoxa. Eu tenho outras influências, como a música popular brasileira, que tem uma energia que eu adoro.

 

 

BP Com o blues você ganhou prêmios?

 

Clara - Ganhei o troféu Caymmi, premiação dada aos artistas do Estado da Bahia, o que me possibilitou fazer a primeira gravação em estúdio. Então fiz a gravação,  que me abriu as portas para fazer meu primeiro festival em São Paulo,   ainda sem disco.   Nesse festival conheci duas pessoas: Edson Cordeiro   e Cássia Eller. No mesmo dia eles estavam na platéia assistindo o meu show.   Quando os conheci, estavam gravando o primeiro disco. A Cássia Eller era muito tímida, contida. Já o Edson todo festivo,  e ele acabou virando o meu amigão. Morou um tempo em Salvador.

 

BP - E então você fechou com o blues?

 

Clara - E foi um fato. Eu realmente gosto de blues. Gosto de música negra. 90% do que tenho na minha casa é música negra. Cantoras negras são as minhas favoritas.

  

BP - Você é autodidata?

 

Clara -  Nunca estudei música. Estudei Sociologia e depois pós-graduação em Informática.

 

BP - E o seu conhecimento de línguas?

 

Clara - Eu estudei inglês em Salvador de 1983 a 1985, depois um ano de literatura americana. Nesse curso tinha uma biblioteca muito legal, e eu  devorava livros da história do jazz, do blues. Ganhei até um prêmio na biblioteca: a de leitora do ano, porque era, entre os três mil alunos da escola, a que pegava mais livros (risos).

 

 

 

BP - A opção pelo blues é uma confirmação da diversidade musical da Bahia?

 

Clara - Eu acho que sim, porque é tanta coisa que tem ali que você nem imagina. Tem banda até de Londrina, Rock Londrina, você acredita?

 

BP - A agenda de shows?

 

Clara- Esse show aqui em Den Haag foi  o último agendado.

 

 

BP Planos para o futuro?

 

Clara Estou gravando uma participação no CD do músico português Emanuel Pessanha aqui na Holanda, e  gravar o meu terceiro disco. Já tenho três músicas.

 

BP   -Também blues?

 

Clara - Sim, só que desta vez avançarei no sentido de colocar mais músicas em português. A minha dificuldade, na composição do segundo disco, era achar letras interessantes em português. O Crivo, o Troca-Toca, música antiga da Rita Lee, foram algumas das letras que eu aproveitei.

 

BP - Como era sua relação com a Rosa Maria? (participação especial no Every Night of The Week)

 

Clara- A conheci em Salvador. Estava se apresentando em um show, um projeto da Fundação Cultural. Então o pessoal da produção me ligou, dizendo que ela gostaria de conhecer artistas de blues e de jazz. Após o show fui ao camarim dela e levei algum material. Ela ouviu e manifestou interesse em gravar a música, mas já tinha planos de gravá-la. A compus para esse disco, e convidei-a para gravar comigo. Então Rosa ficou minha amiga. Ela é uma mestra. Ela tem um timbre legal, muito bonito.

 

BP Que outros estilos te agrada?

 

Clara - Gosto muito do Soul, do punk tipo James Brown anos 70, Rhythm and Blues  Esse show atual é uma mistura. Terá muito blues, referências de country music, um country mais ligado ao blues, o country blues, mais acústico... Eu gosto muito de fazer essa mistura, essa transformação, mudar umas coisas aqui e outras ali.

 

 

 

BP Qual a sua impressão dos ritmos brasileiros atuais?

 

 

Hoje o ritmo brasileiro, que me chama mais a atenção, é o movimento Mangue Beat  no Recife. Mesmo que Chico Science (Siense)) tenha falecido, o movimento continua e faz coisas muito legais. É uma mistura, a batida do maracatu em cima do jazz, do rock, do blues...

 

e se consegue separar um ritmo do outro tranqüilamente, se ouve o ritmo e tira o que é estranho, o que não é da terra. Ouve-se aquilo com letras legais, que infelizmente a música baiana, notadamente o axé music, não tem, é de uma pobreza....A riqueza está na parte rítmica.

 

BP Pobreza, mas não quando se fala de Gilberto Gil e Caetano Veloso...

 

Clara - Hoje em dia quando a gente fala  da música baiana fazemos referência ao axé music e ao pagode. Caetano e Gil são tropicalistas. Eles não são considerados como músicos baianos. Eles fazem  música do mundo.

 

BP - O fato de você ser da Bahia não dá um sotaque diferente no inglês?

 

Clara - Não sei... é um negócio maluco, acho que depende, por exemplo, ouvindo o disco eu não reconheço. Uma vez eu estava cantando em Salvador, em uma casa de Jazz e Blues, e tinha um casal de americanos. Quando veio o intervalo, eles perguntaram: Há quanto tempo você está morando aqui no Brasil? Eles acharam que eu era americana e que estava aqui há muitos anos.

 

BP - O que você acha da música portuguesa?

 

Clara - Eu descobri a música portuguesa pela internet, através do MP3. Eu queria ouvir uns fados e nesse estilo só conheço a Amália Rodrigues. Então descobri uma cantora, a Cristina Branco, que inclusive ganhou disco de ouro na Holanda, com Corpo Iluminado. O último disco dela, tinha músicas de Chico Buarque e de Vinícius de Moraes. Depois, ouvi alguns músicos de Portugal como Pedro Abrunhosa, que tem músicas legais como Santos e Pecadores, que destaca a poesia que a música popular brasileira está perdendo. Tem aquela deprê portuguesa, falamos a mesma língua com lógicas diferentes. Li um texto interessante de Clarice Lispector sobre a música portuguesa. Ela disse que se fosse muda, escolheria o inglês, que é simples. Mas como ela não é muda, precisa de muita coisa pra falar. A língua portuguesa para ela, das línguas que ela conheceu, é a que mais expressa, e ela diz ainda que não gostaria de ter aprendido qualquer língua estrangeira para poder falar o português puro e correto.

 

 

 

BP   - E na música, qual idioma combina mais com você?

 

Clara - Eu gosto muito da língua portuguesa. A forma de falar da Bahia é diferente, acho que a gente é mais barroco pra falar as coisas do que o paulista,  o carioca já é mais displicente com a língua. Já o inglês tem uma objetividade, parece que foi criado pela informática.

 

 

BP - E quanto à pirataria?

 

Clara - Eu fico meio dividida. Sou a favor do MP3, que é uma distribuição caseira, tipo: vai sair um disco de um grupo folclórico da Mongólia e quero fazer um trabalho com ele. Vou na internet e pronto. Então a Net proporciona uma educação musical  grande e rápida, antes do MP3 você tinha que encomendar o disco e esperar de 40 a 50 dias, pagar taxa disso e daquilo. Eu acho que essa coisa caseira não compromete o direito autoral porque você não tem disco, você tem recortes, pedaços... Agora a pirataria é danosa.

 

BP    -  De quem é a culpa?

 

Clara - Ela se alastrou por culpa, obra e graça das gravadoras. Quem ouve música clássica, jazz e blues, não compra disco pirata porque quer o seu encarte. Eu, por exemplo, gosto de ler a ficha técnica, quem tocou, o quê, aonde... e o pirata não tem nada, além do que é uma gravação ruim. Mas a culpa é da gravadora que coloca o disco à venda por um preço absurdo e sonega do autor o direito dele.

 

BP - O lucro chega a ser exorbitante?

 

Clara - Quando você participa do processo industrial, da confecção de um CD, é que você fica por dentro dos preços. Não sabe que pode comprar 30 mil discos virgens a 0,5 centavos. Por que esse disco chega às mãos do consumidor no Brasil a R$ 30?  O assalariado não tem como comprar um disco nesse preço. Ele vai optar em levar o disco pirata de  R$ 5 reais. Tem até disco pirada de R$ 10,00 com encarte.

 

 

BP - Poderia mandar um recado para o público brasileiro nos Estados Unidos?

 

Clara - Eu tenho amigos lá... amigos brasileiros e também americanos. E aí vai o meu recado: ouçam blues e música brasileira. Gostaria de conhecer New Orleans. Aretha Franklin que me aguarde!

 

maraparrela@brazilianpress.com